Operários da Alegria
Em que outra época do ano um amontoado de gente se reúne, quase em pacto, compromissada em ser feliz? No Brasil, durante o carnaval, isso acontece. E acontece com método. Os foliões ocupam ruas, ladeiras e festas feito verdadeiros operários da alegria. Gente que faz cordão de isolamento para a orquestra seguir. Gente que carrega estandarte pesado. Gente que organiza o caos necessário para que o desbunde geral e coletivo aconteça. Foi comendo empanadas, no pós-Carnaval de Olinda, já em Recife, que essa indagação começou a tomar forma.
O comprometimento das pessoas com o carnaval é fascinante. Há um compromisso real do povo brasileiro com a fuleragem, com o fuzuê pelo fuzuê, com a alegria, com a folia de festejar a vida, as dores, os amores e o próprio existir. Poucos acontecimentos são tão catárticos quanto uma noite (ou um dia) de carnaval no Brasil.
Em Olinda, a saída do Homem da Meia-Noite da calunga, por exemplo, reforça esse sentimento. Todo ano digo que não volto para prestigiar a saída. Mas volto. Lá estou eu outra vez, na frente da sede, aguardando e reclamando. Reclamando do aperto, do calor, da demora, do clima tenso de quem sabe que brigas podem surgir, dos guarda-chuvas abertos e de mais um tanto de coisas. Mas quando acontece, quando finalmente acontece a saída do Homem, eu já nem lembro mais das reclamações. São frações de segundos de um encantamento absoluto e coletivo. As novas vestes, o novo boneco, o tema do ano. Há um zum-zum-zum coletivo.
Mas já avisei: no próximo ano, eu não vou assistir à saída do Homem. Vou ficar no Guadalupe aguardando quem vier.
É que, de lá, do Guadalupe, quando a madrugada já está alta, depois de homens virarem quase bicho percorrendo as ladeiras de Olinda, na travessia da madrugada do sábado para o domingo de carnaval, acontece um momento que só quem é rato vai lá assistir: a passagem da chave para o velho encantado do Cariri Olindense. Dizem que é uma tradição antiga. E exatamente ali, bem ali, naquele pedaço de madrugada feliz, que o carnaval começa de verdade para o olindense. Eu não sei explicar em profundidade o que sinto nesse momento. Mas sinto. Sinto uma alegria grande demais. Dessas que sequer cabem na gente. O resto vira história, fotografia e lembrança.
Na segunda-feira, fiquei profundamente emocionado ao chegar ao Recanto do Pré-Sal para festejar o meu bloco amado e a memória de Roberto. Maicon Douglas também estava presente, o que deixou tudo ainda mais sensível. Foi bonito. É sempre bonito demais. As crianças cresceram. Sonham grande. E assim será.
Brinquei carnaval ao lado de gente querida. Estive numa casa onde a grata surpresa foi o entrosamento coletivo. Mergulhávamos juntos na folia, brincávamos juntos, voltávamos juntos para casa, dividimos a mesma latinha e até levávamos calotes juntos. Olinda faz isso com a gente. Forja caráter e camaradagem. Fortalece o que já existe, acolhe o novo e firma o que virá.
Nosso anfitrião de casa, nossa cozinheira e os organizadores estão de parabéns. Quem trouxe essa gente? Pode trazer de novo - e mais!
“Lá vem o Cariri com saco de pegar criança!”. Olha o buraco! Cuidado com o pesado!. Olha o sucesso! Bonito você, hein? Te beijaria! Lá vem o Homem da Meia-Noite! Olinda quero cantar! PQP, é a melhor orquestra do Brasil! Oséas! Bora por aqui! Olha o lixo da Prefeita! Vamos cortar caminho! Caí num lixão! Lá vem o Dragão!
E alguém sempre grita, com razão:
- Eu acho é pouco. É bom demais!
- Eu acho é pouco. Eu quero é mais"
Talvez seja por isso que, quando a orquestra passa e a multidão canta junto, a gente sinta por alguns instantes que o mundo finalmente deu certo.
E então alguém grita na ladeira:
- "Olinda! Quero cantar a ti essa canção!"
E pronto. O coração da gente volta a bater no compasso do frevo.
Bonito demais.
Cafona demais.
Gostoso demais.

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